Olá, sou Lucas Melo, Ortopedista e Especialista em Joelho. A partir de agora, vamos discutir tudo sobre as lesões da cartilagem (condrais). Conheça os tópicos que serão abordados nesse Guia Completo das lesões da cartilagem:

  1. ESSA É A SUA HISTÓRIA? FOI ASSIM QUE O SEU PROBLEMA COMEÇOU?

  2. O QUE É A LESÃO DA CARTILAGEM DO JOELHO?

  3. ANATOMIA E FUNÇÃO DA CARTILAGEM

  4. COMO OCORRE A LESÃO DA CARTILAGEM?

  5. SINAIS E SINTOMAS DAS LESÕES DA CARTILAGEM

  6. DIAGNÓSTICO E EXAMES COMPLEMENTARES NAS LESÕES CONDRAIS

  7. VISÃO GERAL SOBRE O TRATAMENTO DAS LESÕES DA CARTILAGEM

  8. TRATAMENTO CONSERVADOR (NÃO-CIRÚRGICO) DAS LESÕES DA CARTILAGEM

  9. TRATAMENTO CIRÚRGICO DAS LESÕES DA CARTILAGEM

  10. REABILITAÇÃO E ORIENTAÇÕES NO PÓS-OPERATÓRIO DAS LESÕES CONDRAIS

1. ESSA É A SUA HISTÓRIA? FOI ASSIM QUE O SEU PROBLEMA COMEÇOU?

“Não sei direito dizer como essa dor começou, dói bastante aqui pela lateral e o joelho “incha”. Essa é uma das coisas mais chatas, é um “inchaço” que vai e volta, nas crises ele piora muito”.

“Parece que tem um negócio solto no meu joelho. Algumas vezes, dependendo do movimento, o joelho até trava e não consigo mais mexer novamente. A dor é bem nesse ponto aqui, parece que tem um espinho ou uma agulha no local”.

Você se identificou com alguma dessas história? Não deixe de ler esse Guia Completo das Lesões da Cartilagem até o final! Esse texto completo e rápido irá fazer com que você entenda tudo sobre as lesões condrais. Se ficar com qualquer dúvida, entre em contato que teremos o prazer de ajudar você.

2. O QUE É A LESÃO DA CARTILAGEM DO JOELHO?

A cartilagem articular é uma estrutura fundamental para o bom funcionamento do joelho. Ela atua absorvendo o impacto e evitando o contato direto “osso com osso”, ajudando que o joelho “deslize” mais fácil durante a movimentação. Por ser um tecido avascular (ou seja, não chegam vasos sanguíneos na cartilagem do joelho), as condropatias ou lesões da cartilagem tem um baixo potencial de cicatrização espontânea, podendo trazer transtornos às pessoas com essas lesões.

Imagem demonstrativa, podemos observar uma lesão de cartilagem normal e outra lesionada
A cartilagem articular é uma estrutura fundamental para o bom funcionamento do joelho.

Modificado de MACI

Estima-se que até 63% das artroscopias de joelho (aquele procedimento por vídeo) realizadas possam ter algum tipo de lesão da cartilagem. Além disso, até 66% das ressonâncias de joelho podem apresentar sinais de condropatia/condromalácia patelar. Se você quer saber tudo a condropatia ou condromalácia patelar, CLIQUE AQUI! 

Sabe aquelas queixas de dor, episódios de inchaço e derrame do joelho, além de “estalos” e travamentos? Pode ser que isso seja uma condropatia ou lesão da cartilagem do joelho. Se você quer saber tudo sobre as lesões condrais do joelho e conhecer as melhores soluções para o seu problema, não deixa de ler esse texto até o final!

3. ANATOMIA E FUNÇÃO DA CARTILAGEM

A cartilagem do joelho possui uma estrutura e anatomia muito complexas, tendo um papel vital para a prática de atividades físicas. Ela ajuda na transmissão de carga na articulação (absorve impacto), além de permitir um deslize suave e sem atrito durante a movimentação.

Mostrando como a cartilagem absorve o impacto em nossas atividades cotidianas e exercícios
A Cartilagem ajuda na transmissão de carga na articulação (absorve impacto), além de permitir um deslize suave e sem atrito durante a movimentação

Modificado de Osteoarthritis and Cartilage

A cartilagem é uma estrutura que possui células (os condrócitos) e uma matriz extracelular (onde essas células ficam dentro). Essa matriz extracelular é composta por água (você sabia que 65-80% do peso da cartilagem é composto por água?), colágeno (o colágeno tipo II é o mais comum) e proteoglicanos. Essas fibras de colágeno ajudam a fornecer resistência à cartilagem do joelho.

Para suportar melhor a carga, a cartilagem do joelho é dividida em 4 camadas (superficial, transição, profunda e cartilagem calcificada), seguida do osso subcondral (o osso que fica logo abaixo da cartilagem).

Imagem explicativa de como as 4 camadas da cartilagem que serve para judar a suportar melhor a carga
4 camadas (superficial, transição, profunda e cartilagem calcificada), seguida do osso subcondral (o osso que fica logo abaixo da cartilagem).

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Como já comentamos, a cartilagem é avascular (não chegam vasos sanguíneos na cartilagem). Além disso, ela também não tem inervação, ou seja, ela não dói por si só. Entretanto, esse osso que fica embaixo da cartilagem (o osso subcondral) pode provocar bastante dor nos casos de lesões profundas que chegam até ele.

Imagine a cartilagem como sendo um asfalto perfeito (logo mais vou te mostrar uma imagem que vai fazer você entender bem essa comparação com o asfalto). Esse asfalto é necessário para você dirigir em velocidade e realizar manobras. Entretanto, buracos nesse asfalto (que seriam as lesões da cartilagem ou condropatia) podem trazer problemas, dependendo do tamanho, da velocidade que você dirige, de quantos vezes você já caiu nesse buraco.

Mas como ocorre esse “buraco” na cartilagem?

4. COMO OCORRE A LESÃO DA CARTILAGEM?

Apesar de algumas pessoas acabarem tentando colocar tudo como lesão da cartilagem ou condropatia, uma divisão entre os tipos de lesão condral pode ajudar no melhor entendimento de como essas lesões da cartilagem ocorrem. Para simplificar, vamos dividir em 3 grupos: lesões focais (aquela em um só lugar do joelho), lesões degenerativas (ou artrose de joelho) e a condromalácia patelar.

As lesões focais agudas da cartilagem, geralmente, ocorrem após algum tipo de trauma, como uma torção do joelho, trauma direto após uma queda, durante uma lesão do LCA ou após uma luxação da patela. Note que, nessas lesões focais (em apenas um lugar) agudas, o joelho era normal até que esse trauma “arrancou” um pedaço da cartilagem. Observe esse caso real de um jogador profissional de futebol que fez um “buraco” na cartilagem da patela após uma luxação.

Um jogador de futebol que fez um "buraco" na cartilagem da patela após uma luxação.
Observe esse caso real de um jogador profissional de futebol que fez um “buraco” na cartilagem da patela após uma luxação.

Modificado de Cartilage

Além do trauma, outra possível causa de lesão focal da cartilagem é a osteocondrite dissecante, uma condição mais comum em adolescentes e pessoas mais jovens, não sendo identificada uma causa para essa lesão condral. Nesses casos, há uma tendência de “soltar um pedaço” do osso com a cartilagem de alguma região do joelho, provocando dor e desconforto. Veja na imagem abaixo esse pedaço de cartilagem querendo “se soltar”.

Um pedaço de cartilagem querendo “se soltar”
Osteocondrite dissecante, uma condição mais comum em adolescentes e pessoas mais jovens, não sendo identificada uma causa para essa lesão condral.

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As lesões degenerativas da cartilagem costumam acometer pessoas com idade mais avançada ou que tenham algum fator predisponente para o desgaste do joelho. A lesão costuma ser mais difusa, estando em várias partes do joelho. É o que chamamos de artrose do joelho, uma condição cada vez mais comum e abordada em um tópico específico que você acessa ao CLICAR AQUI.

Por último, temos a condromalácia patelar. Apesar de alguns agruparem a condromalácia como uma lesão da cartilagem ou condropatia, ela funciona de uma maneira diferente. Na imensa maioria das vezes, o problema não está de fato na cartilagem, mas sim em um desequilíbrio na força da musculatura. CLIQUE AQUI para você ter todas as informações sobre a condromalácia patelar, uma das principais causas que levam as pessoas a procurarem um Especialista em Joelho.

Acho que deu para você notar que o tema “lesões da cartilagem” é bem complexo e amplo né? Daqui para frente, vamos falar sobre as lesões focais da cartilagem. Não deixe de clicar nos links que colocamos nos parágrafos anteriores sobre osteocondrite dissecante, artrose do joelho e condromalácia patelar. Eles vão trazer um conhecimento que permitirá que você entenda essas lesões de maneira completa.

Após uma lesão da cartilagem, o que as pessoas podem sentir? Como é a dor de uma lesão condral?

5. SINAIS E SINTOMAS DAS LESÕES DA CARTILAGEM

Em muitos casos, as lesões da cartilagem não apresentam sintomas tão óbvios e específicos, diferente do que ocorre numa lesão de ligamento, na qual a instabilidade e a frouxidão acometem o joelho.

Vamos ver se você se identifica com esse quadro…

Geralmente, as pessoas costumam apresentar um quadro de dor. Essa dor tende a piorar com atividades de impacto ou ao subir/descer escadas. É comum que ela se concentre na parte do joelho que possui a lesão da cartilagem, mas também pode ter um componente mais difuso, causado pela inflamação do joelho. Essa inflamação tem relação direta com o inchaço do joelho (derrame articular ou “água no joelho”) que ocorre em muitos casos. Observamos um padrão de inchaço que “vai e volta”, sempre causando desconforto e dor.

Joelho inchado
Observamos um padrão de inchaço que “vai e volta”, sempre causando desconforto e dor.

Esses quadros de dor e inchaço podem levar ao enfraquecimento da musculatura e perda da “firmeza do joelho”, mesmo sem lesão de ligamento. Sabe quando você passa a não confiar mais naquele joelho?

Nos casos em que o fragmento que foi arrancado da cartilagem fica solto dentro do joelho, podemos ter as queixas de crepitação (estalidos), sensação de corpo livre (como se fosse uma “pedra no sapato” dentro do joelho) e até mesmo bloqueio articular, que é quando esse pedaço de cartilagem fica impactado e impede que você movimente o joelho.

Você já teve alguma dessas “sensações estranhas” no joelho?

Conforme comentamos, esses sintomas não são específicos das lesões da cartilagem do joelho. O mais comum mesmo é o quadro de dor, principalmente aos esforços. Mas então fica a grande pergunta: como eu faço para saber se o meu problema é uma lesão da cartilagem ou condropatia do joelho? Acompanhe agora o passo a passo para um diagnóstico correto das lesões condrais!

6. DIAGNÓSTICO E EXAMES COMPLEMENTARES NAS LESÕES CONDRAIS

O diagnóstico correto das lesões da cartilagem não é uma tarefa fácil, já que nenhum achado do exame físico é específico para as condropatias. Algumas vezes, a única alteração encontrada pode ser o quadro doloroso.

Mesmo assim, um exame físico completo é a etapa mais importante para o diagnóstico preciso, que é fundamental na escolha do melhor tratamento.

No exame físico, você buscará localizar o ponto principal da dor. Isto é muito importante, pois devemos sempre correlacionar o ponto da dor com as alterações nos exames de imagem. Não vai fazer muito sentido se sua dor for na parte de dentro do joelho e tiver alguma alteração na parte de fora durante a avaliação da sua ressonância. Temos que buscar essa compatibilidade!

Avaliar a presença de deformidade dos membros inferiores também deve ser prioridade durante o exame. Você já ouviu falar em joelho varo ou valgo? Essas alterações no alinhamento dos membros devem sempre ser analisadas no contexto de uma lesão da cartilagem.

Para isso, costumamos utilizar o raio-X panorâmico de membros inferiores.

Analise de como chegar ao diagnóstico nas lesões condrais.
Você consegue observar a linha que passa do centro do quadril ao centro do tornozelo? Se o joelho é normal (bem alinhado), essa linha passa bem no meio do joelho. No varo, essa linha passa “dentro” do joelho. No valgo, essa linha passa “fora” do joelho.
Essa linha representa por onde passa a carga no membro inferior. Ou seja, ela vai nos permitir analisar se algum dos “lados” do joelho está sofrendo algum tipo de sobrecarga.

Modificado de Mechanical contributors to sex differences in idiopathic knee osteoarthritis

Você consegue observar a linha que passa do centro do quadril ao centro do tornozelo? Se o joelho é normal (bem alinhado), essa linha passa bem no meio do joelho. No varo, essa linha passa “dentro” do joelho. No valgo, essa linha passa “fora” do joelho.

Essa linha representa por onde passa a carga no membro inferior. Ou seja, ela vai nos permitir analisar se algum dos “lados” do joelho está sofrendo algum tipo de sobrecarga. Essa avaliação é fundamental na tomada de decisão no melhor tratamento das condropatias.

E qual seria o melhor exame para ver a lesão da cartilagem?

O exame mais sensível para avaliar as lesões focais da cartilagem é a ressonância magnética. Com esse exame, é possível avaliar o tamanho e a profundidade da lesão, inclusive para saber se ela vai até o osso subcondral (lembra que já falamos desse osso que fica abaixo da cartilagem e pode provocar dor?). Nesses casos mais profundos, pode ter algum sinal de edema ósseo, também avaliado pela ressonância. Outra coisa que devemos procurar é a presença de pedaços soltos da cartilagem, os chamados “corpos livres”.

Ressonância magnética para avaliar o tamanho e a profundidade da lesão.
O exame mais sensível para avaliar as lesões focais da cartilagem é a ressonância magnética. Com esse exame, é possível avaliar o tamanho e a profundidade da lesão, inclusive para saber se ela vai até o osso subcondral .

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Indicando o que é edema ósseo.
Edema Ósseo

Modificado de RBO

Agora que você já sabe tudo sobre a função, sintomas e diagnóstico das condropatias e lesões da cartilagem, vamos entrar na parte mais importante e desafiadora: como deve ser o tratamento dessas lesões?

Não deixe de ler os próximos tópicos, eles vão te ajudar a entender de uma maneira lógica e individualizada como podemos conduzir o melhor tratamento das lesões condrais.

7. VISÃO GERAL SOBRE O TRATAMENTO DAS LESÕES DA CARTILAGEM

Lembra que eu pedi para você pensar na lesão da cartilagem como um buraco no asfalto? Vamos voltar agora para o exemplo do asfalto esburacado, ele vai ajudar bastante a gente na tarefa de entender o tratamento! Olhe com atenção a imagem que está aqui abaixo:

Você consegue ver que nos 2 casos existe um buraco no asfalto, mas que eles são diferentes. Na imagem de cima, não tem como “escapar” desse buraco. Se o carro passar por ele, vai cair e não tem como sair. Isso seria uma lesão grande e funda da cartilagem, fazendo com que o osso subcondral (que fica abaixo da cartilagem) seja machucado. Já o buraco da imagem inferior é menor. Provavelmente, se você for “com jeitinho”, esse buraco não vai trazer problemas para o seu carro. Ele não vai danificar o seu carro quando você passa por ele devagar
O grau de atividade e carga que você realiza tem impacto nas lesões da cartilagem e condropatias, interferindo na decisão do melhor tratamento

Modificado de The Journal of Bone and Joint Surgery

Você consegue ver que nos 2 casos existe um buraco no asfalto, mas que eles são diferentes. Na imagem de cima, não tem como “escapar” desse buraco. Se o carro passar por ele, vai cair e não tem como sair. Isso seria uma lesão grande e funda da cartilagem, fazendo com que o osso subcondral (que fica abaixo da cartilagem) seja machucado.

Já o buraco da imagem inferior é menor. Provavelmente, se você for “com jeitinho”, esse buraco não vai trazer problemas para o seu carro. Ele não vai danificar o seu carro quando você passa por ele devagar. Agora imagina que você está acelerando (300km/hora) em uma Ferrari turbo. Com essa intensidade, mesmo o buraco pequeno pode quebrar a sua Ferrari. Com o seu joelho não é diferente! O grau de atividade e carga que você realiza tem impacto nas lesões da cartilagem e condropatias, interferindo na decisão do melhor tratamento.

Deu para entender essa comparação do asfalto com a cartilagem?

Vamos continuar com algumas comparações…

Vários protocolos para decidir a melhor opção de tratamento são baseados no tamanho da lesão. Mas agora eu quero a sua opinião: você acha que uma lesão de 2cm2 é igual em todo mundo? Use essa imagem para te ajudar na sua conclusão…

O tamanho da lesão também é relativo, depende do “tamanho do joelho” (dá para ver que o tamanho do joelho desses dois atletas é bem diferente, né?). Nem toda lesão que tenha o mesmo tamanho é igual e deve seguir o mesmo protocolo de tratamento.
O tamanho da lesão também é relativo, depende do “tamanho do joelho” (dá para ver que o tamanho do joelho desses dois atletas é bem diferente, né?).

Isso mesmo que você imaginou! O tamanho da lesão também é relativo, depende do “tamanho do joelho” (dá para ver que o tamanho do joelho desses dois atletas é bem diferente, né?). Nem toda lesão que tenha o mesmo tamanho é igual e deve seguir o mesmo protocolo de tratamento.

Fizemos todas essas comparações com um objetivo: fazer você entender que não existem protocolos ou técnicas que devam ser sempre seguidas. Cada caso deve ser sempre visto de maneira individualizada, analisando as características da lesão e, principalmente, as expectativas e necessidades de cada pessoa. Isso mesmo, é fundamental sabermos o quanto você “usa” o seu joelho, quais as atividades que te incomodam. Por isso a importância de ser sempre realizada uma avaliação completa por um Especialista em Joelho da sua confiança!

Agora quero dar uma notícia que eu acredito que vai te tranquilizar: a grande maioria dessas lesões da cartilagem ou condropatias são tratadas conservadoramente, ou seja, sem necessidade de cirurgia ou outros procedimentos. Isso é bom né?

Então acompanha aí o próximo tópico para você saber tudo sobre como proceder com o tratamento não-cirúrgico.

8. TRATAMENTO CONSERVADOR (NÃO-CIRÚRGICO) DAS LESÕES DA CARTILAGEM

Como já falamos, a parte boa é que a maioria das condropatias e lesões da cartilagem é tratada sem cirurgias. Entretanto, não existe nenhum tratamento mágico ou milagroso. Você é parte ativa e o seu empenho no processo é fundamental para que bons resultados sejam alcançados!

A base do programa de tratamento é um plano de fortalecimento muscular, o que irá permitir melhora da função e do seu condicionamento.

No começo, como o joelho pode estar inflamado e bastante doloroso, medicações analgésicas e anti-inflamatórias podem ser uma boa opção. Além disso, acompanhamento com um fisioterapeuta competente é fundamental nesta fase de controle inicial da dor. Isso permitirá que você já inicie exercícios que servirão como transição para o fortalecimento muscular.

Recomendamos também, principalmente no começo, evitar atividades de maior impacto. Isso não significa que você deve ficar em repouso! Por exemplo, uma bicicleta (usada de maneira adequada) é uma excelente opção de exercício sem carga, permitindo manter a prática de atividades e um bom condicionamento cardiovascular.

Um programa contínuo (é isso aí, não vale parar depois que a dor passar!) de fortalecimento da musculatura é fundamental. Para isso, um seguimento com um profissional de educação física deve ser estimulado. Isso vai fazer com que você execute os exercícios adequados, otimizando o processo de melhora da sua lesão da cartilagem. Veja alguns exercícios que podem te ajudar no tratamento das lesões da cartilagem.

Alguns exercícios que podem te ajudar no tratamento das lesões da cartilagem.
Alguns exercícios que podem te ajudar no tratamento das lesões da cartilagem.

Modificado de Massachusetts General Hospital

Em pacientes com sobrepeso, recomendamos a redução do peso. Dependendo do movimento realizado, a articulação do joelho pode sentir até 4-5x o peso corporal. Imagine só os benefícios que a redução do peso pode trazer no manejo dessas lesões da cartilagem!

Outra dúvida que sempre surge é sobre os “remédios para a cartilagem”, como o colágeno e a glucosamina/condroitina. A verdade é que nenhum remédio “repõe” ou “regenera” a cartilagem. Ainda não existe esse tipo de medicação (tomara que algum dia alguém descubra!). Dependendo da lesão da cartilagem e em casos selecionados, alguns pacientes podem referir benefício no uso dessas medicações, com melhora da dor. Caso optado por essas medicações, é importante uma conversa para explicar os custos e os benefícios esperados com o tratamento.

Outra opção são as infiltrações com ácido hialurônico. O ácido hialurônico também não “regenera” a cartilagem, mas pode trazer benefícios quando bem indicado. Geralmente, a sua utilização é mais aplicada em lesões condrais degenerativas (CLIQUE AQUI PARA SABER TUDO SOBRE ARTROSE E LESÕES DEGENERATIVAS DA CARTILAGEM). Pensando naquelas lesões focais (um “buraco” isolado) da cartilagem, que é o objetivo principal deste texto, o ácido hialurônico acaba não sendo uma opção utilizada com muita frequência.

Infelizmente, alguns casos mais graves (principalmente aqueles com lesões maiores e mais profundas), não evoluem tão bem com o tratamento conservador, sendo necessário algum tipo de abordagem cirúrgica para o tratamento dessa lesão da cartilagem ou condropatia.

A gente vai descrever agora algumas técnicas que são utilizadas no tratamento cirúrgico das lesões condrais. A parte mais difícil de todo o processo é a indicação e escolha do melhor tratamento para você. Por isso é fundamental uma avaliação individualizada para cada caso. Leia com calma cada uma delas, a sua compreensão é fundamental no processo de tomada de decisão, você é parte ativa nesse processo!

9. TRATAMENTO CIRÚRGICO DAS LESÕES DA CARTILAGEM

ARTROSCOPIA SIMPLES COM DEBRIDAMENTO

cirurgia do LCA realizada por vídeo
Graças a evolução das técnicas cirúrgicas, a cirurgia do LCA é realizada por vídeo, possibilitando menores incisões cirúrgicas.

Modificado de Arthroscopy Techniques

É a famosa cirurgia por vídeo com os “furinhos” no joelho. Esta técnica é mais um procedimento paliativo, não sendo aplicado nenhum tratamento específico para a lesão da cartilagem. Retiram-se os pedaços de cartilagem que estão soltos e aqueles “corpos livres”, além de uma “limpeza” na articulação, reduzindo a inflamação. Tem apenas um papel de alívio sintomático, podendo haver recidiva do quadro (até porque não foi aplicado nenhum tratamento específico para a cartilagem). Não é comum indicarmos este procedimento, sendo mais apropriado naqueles pacientes com o joelho mais degenerativo e na presença de sintomas mecânicos (como bloqueios e travamentos).

MICROPERFURAÇÕES (MICRAFRATURA)

É um procedimento também realizado por artroscopia. Após a limpeza e regularização da lesão da cartilagem, são feitos pequenos furos (com instrumental específico) no osso que fica abaixo da cartilagem.

MICROPERFURAÇÕES (MICRAFRATURA - Procedimento também realizado por artroscopia. são feitos pequenos furos (com instrumental específico) no osso que fica abaixo da cartilagem.
MICROPERFURAÇÕES (MICRAFRATURA – Procedimento também realizado por artroscopia. são feitos pequenos furos (com instrumental específico) no osso que fica abaixo da cartilagem.

Modificado de JBJS

Esses furos vão permitir que o sangue da medula óssea chegue ao local da lesão, levando algumas células que podem estimular um processo de cicatrização. É uma técnica com limitações nos casos de lesões condrais maiores, tendo piores resultados nesses casos e podendo falhar com o passar dos anos.

Hoje em dia, podemos utilizar membranas de colágeno associada com essas microperfurações, visando cobrir a lesão e melhorar os resultados (vamos falar logo mais sobre essa nova opção de tratamento).

TRANSPLANTE OSTEOCONDRAL AUTÓLOGO

É o procedimento conhecido como mosaicoplastia (isso mesmo, em comparação com as técnicas de montagem com mosaico). Nesses casos, retiramos um plug (cilindro de até 10mm) contendo cartilagem e osso subcondral de uma área do joelho que passa pouca carga (pouco utilizada) e levamos esse cilindro para a área da lesão condral.

procedimento conhecido como mosaicoplastia , onde está , retiramos um plug (cilindro de até 10mm) contendo cartilagem e osso subcondral de uma área do joelho que passa pouca carga (pouco utilizada) e levamos esse cilindro para a área da lesão condral.
TRANSPLANTE OSTEOCONDRAL AUTÓLOGO

Modificado de Osteoarthritis and Cartilage

É uma técnica muito boa, pois permite o tratamento das lesões da cartilagem mais profundas (que chegam até o osso). O grande fator limitante é a quantidade de cartilagem que você pode retirar da área doadora, que é restrita. Desta forma, essa técnica de transplante autólogo (ou seja, que utiliza a cartilagem do próprio paciente) não é recomendada para lesões muito grandes, pois vai faltar cilindro de cartilagem para cobrir toda a lesão.

É uma técnica muito boa, pois permite o tratamento das lesões da cartilagem mais profundas (que chegam até o osso)
TRANSPLANTE OSTEOCONDRAL AUTÓLOGO

Modificado de JBJS

Uma alternativa é utilizar cartilagem de um doador falecido, através de um banco de tecidos musculoesquelético. Infelizmente, Isso ainda não é realidade no nosso país, sendo uma prática muito comum nos Estados Unidos.

MEMBRANAS DE COLÁGENO

As membranas de colágeno estão disponíveis no Brasil como uma nova opção no tratamento das lesões da cartilagem. A grande vantagem dessas membranas é que elas permitem o tratamento de lesões maiores, sendo uma excelente opção nestes casos.

Após o adequado preparo da área de lesão,cobertura com essa membrana de colágeno, seguido de uns pontos para ajudar a segurá-la no local, colando com cola de fibrina .
MEMBRANAS DE COLÁGENO

Após o adequado preparo da área de lesão (utilizando alguma técnica para estimular o processo de reparo da cartilagem), você realiza a cobertura com essa membrana de colágeno, seguido de uns pontos para ajudar a segurá-la no local, colando com cola de fibrina (uma espécie de cola cirúrgica).

Após o adequado preparo da área de lesão,cobertura com essa membrana de colágeno, seguido de uns pontos para ajudar a segurá-la no local, colando com cola de fibrina .
MEMBRANAS DE COLÁGENO

Modificado de International Orthoapaedics

Deu para entender o procedimento nessa figura aqui de cima?

A vantagem dessa membrana é a possibilidade do tratamento de lesões maiores, sem necessidade de transplante de doadores. Além disso, ela permite que você utilize células (que tanto podem ser os condrócitos da cartilagem ou células tronco mesenquimais) para melhorar o potencial de regeneração da cartilagem.

cobertura com essa membrana de colágeno, seguido de uns pontos para ajudar a segurá-la no local, colando com cola de fibrina
cobertura com essa membrana de colágeno, seguido de uns pontos para ajudar a segurá-la no local, colando com cola de fibrina

Modificado de Instr Course Lect

Tais técnicas é o que chamamos de Terapia Celular e Ortopedia Regenerativa. Infelizmente, ainda não estão disponíveis para uso clínico rotineiro no Brasil. Esperamos que em breve estas opções possam fazer parte do nosso arsenal terapêutico.

São várias opções de tratamento né? Vamos repetir, o mais importante é a individualização do seu caso. Só assim poderemos decidir a melhor opção de tratamento para a sua lesão de cartilagem ou condropatia. Conte sempre com um Especialista em Joelho que tenha familiaridade com todas essas técnicas.

Já estamos quase no fim!!

Mas agora vem uma parte fundamental e que você saber como funciona: a reabilitação no pós-operatório.

10. REABILITAÇÃO E ORIENTAÇÕES NO PÓS-OPERATÓRIO DAS LESÕES CONDRAIS

Dentre as lesões do joelho, as condropatias são aquelas que mais necessitam de um plano de reabilitação individualizado.

Isso ocorre porque são várias técnicas disponíveis, cada uma necessitando de um tipo diferente de reabilitação. Além disso, o tamanho da lesão e o local do joelho que está acometido interferem nesta escolha.

Sendo assim, mais do que descrever algum protocolo de reabilitação pós-operatório das lesões de cartilagem, prefiro recomendar uma conversa entre o Especialista em Joelho e o Fisioterapeuta, discutindo o que foi realizado na cirurgia e as melhoras estratégias para reabilitar e permitir o retorno mais precoce às atividades.

Independente se foi realizada cirurgia ou não, o tratamento de uma lesão da cartilagem ou condropatia não é algo simples e precisa ser feito por profissionais da sua confiança e com experiência nas lesões condrais. Sabemos que a demanda por práticas esportivas vem aumentando cada vez mais e relaciona-se com o bem-estar das pessoas. Caso tenha alguma dúvida e precise de mais esclarecimentos, pode contar conosco para ajudar você a voltar a fazer as suas atividades diárias e praticar esportes sem dor. Você é parte ativa desse processo!